Fiz um vídeo-análise do hiperfoco autista a partir do conceito de monotropismo. Disponibilizo o vídeo aqui (se quiser aproveitar e clicar para se inscrever no canal do youtube, dica dica) e, abaixo, uma transcrição adaptada.
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Eu acredito que um conceito fundamental para entender o autismo hoje é o monotropismo, que é um conceito ainda pouco conhecido, especialmente no Brasil. Isso ocorre porque as teorias feitas por pesquisadores autistas a partir das vivências autistas ainda são marginalizadas.
E o que significa esse conceito? Ele serve para explicar as diferenças entre autistas e não autistas a partir de uma diferença de atenção. A atenção no processamento das informações dos sentidos, dos estímulos sensoriais. O que eu quero dizer com isso? A pessoa autista teria uma tendência monotrópica, que é uma atenção muito focalizada em um eixo muito estreito, como o foco de uma lanterna. É tão estreito e o que está fora desse campo de atenção é como se não existisse para a pessoa autista. É por isso que a pessoa autista tem uma atenção que percebe relações muito profundas, relações que às vezes para os outros não são tão visíveis, e ao mesmo tempo ignora coisas que deveriam estar na visão periférica. Enquanto que as pessoas não autistas teriam uma tendência a uma atenção politropista, que divide essa atenção em focos mais difusos e apresentauma visão mais ampla e periférica, mas não tão profunda.
E isso vai se conectar muito com um conceito que é mais familiar, que é o do hiperfoco. Para explicar melhor o que é esse hiperfoco e porque esse hiperfoco autista é diferente de um interesse muito grande de uma pessoa não autista, temos que entender melhor o que está acontecendo quando engajamos com esse assunto que é o nosso hiperfoco. Não é apenas um interesse muito grande, mas é um interesse que justamente vai guiar esse eixo muito estreito e nós vamos conseguir estabelecer relações muito profundas a partir desse eixo. É a partir desse hiperfoco que eu vou conseguir me desenvolver, digamos assim.
Por exemplo, se eu gosto muito de um determinado assunto, eu vou querer falar com outras pessoas sobre isso, eu vou querer desenvolver às vezes histórias, projetos, vou querer estar em determinados lugares, fazer certas coisas por causa desse interesse. E porque eu tenho esse interesse que, vamos dizer, consegue guiar a minha atenção, eu consigo aprender muito rapidamente coisas que sem esse contexto, sem esse interesse, eu teria uma dificuldade muito grande. Eu consigo ler artigos imensos, livros técnicos sobre autismo, porque é o meu hiperfoco. Agora, me coloca pra ler, pra ver qualquer coisa que não seja do meu interesse, muitas vezes eu fico me batendo com coisas que seriam super simples pras outras pessoas, mas eu literalmente não consigo sentar minha atenção naquele assunto. A minha atenção fica indo, assim, pelos ares.
Quando eu tenho esse hiperfoco, é como se eu tivesse uma ponteira laser na direção desse assunto. E é a partir desse hiperfoco que eu vou sustentando o meu desenvolvimento ao longo da minha vida. Eu vou oscilando entre hiperfocos diferentes e mantendo, vamos dizer, uma constância. É a partir do hiperfoco e de uma constância subsequente que eu vou conseguir me desenvolver.
Para dar um exemplo da minha vida recente, foi depois que eu tive a minha filha que eu tive um hiperfoco em aprender a cozinhar. Eu sabia cozinhar apenas coisas muito simples, mas eu não tinha paciência pra ficar fazendo muita comida. E foi a partir dali que eu criei esse hiperfoco. Eu passava muito tempo, eu comprei livros, eu via vídeos. Eu passei muito tempo na cozinha explorando possibilidades pra fazer uma comida saudável e completa pra minha filha.
E esse hiperfoco, depois que se criou uma rotina, esse hiperfoco diminuiu. Hoje em dia eu tenho uma dificuldade imensa pra pegar, sentar e ler uma receita, uma coisa de culinária. Mas, a partir da constância que eu tive, a partir desse hiperfoco, eu consegui ir melhorando aos poucos e hoje eu consigo me virar muito bem na cozinha. Sem o hiperfoco, desenvolver essa habilidade seria muito mais difícil, porque sem ele eu sinto uma profunda desorganização e eu não consigo lidar com o excesso de informações e estímulos.
Há uma profunda conexão desses hiperfocos com a produção de sentido na sua vida, sabe? A gente não pode só pensar em autismo de uma forma muito biológica, muito cognitiva, digamos assim. Por exemplo, por que eu desenvolvi esse hiperfoco em alimentação saudável? Porque eu entendi que isso era muito importante pra minha filha. Eu via isso como muito ligado ao meu papel como mãe. Por que eu tenho um foco tão grande em autismo ? Porque eu entendo que eu posso contribuir para diminuir o sofrimento das pessoas com meu trabalho. E é por isso que esse hiperfoco se sustenta. Esses hiperfocos que são conectados a um significado de vida, eles vão se sustentar ao longo do tempo.
Já hiperfocos que não tem um significado tão relevante dentro da minha vida, eles oscilam. Por exemplo, eu tenho hiperfoco em videogame, eu tenho hiperfoco em filmes, eu tenho hiperfoco em livros, mas eles oscilam de acordo com a fase da minha vida. Quando eles não têm uma conexão tão grande com quem eu sou, com os significados que eu produzo da minha vida, os hiperfocos são muito
menos estáveis, eles tendem a sumir.
Em síntese, acredito que devemos entender o monotropismo e o hiperfoco a partir de tudo isso, dessa necessidade de dar ordem a um mundo caótico, de conseguir lidar com as informações e estímulos em excesso para se desenvolver nesse mundo caótico e como uma forma de construir sentidos e signifcados.