Fiz um vídeo falando sobre como o que é rotulado como rigidez cognitiva em pessoas autistas muitas vezes é uma resposta traumática. Disponibilizo o vídeo aqui e, abaixo, uma transcrição adaptada.

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Rigidez cognitiva, na minha opinião, enquanto autista, enquanto pesquisadora, não é um conceito muito útil, muito benéfico para entender a experiência das pessoas autistas. Por quê? Porque você acaba desconsiderando uma série de experiências, uma série de motivos que justificam, que explicam o porquê dessa suposta rigidez e você acaba deixando de explorar essas questões quando você coloca qualquer resistência no campo de uma suposta rigidez cognitiva.

Para dar um exemplo que vi em um vídeo: a pessoa autista mandava uma mensagem e na resposta a outra pessoa colocava só um oi. E a pessoa autista super analisava isso: será que tem alguma coisa errada? Será que ele não gosta de mim? Será que eu fiz alguma coisa? Porque ela esperava um formato de resposta diferente. E isso não é rigidez cognitiva.

Isso para mim é o que chamamos de disforia sensível à rejeição, que ocorre quando a pessoa fica extremamente sensível a qualquer situação que possa ser interpretada como rejeição. De forma que ela vai entender qualquer mínima mudança que ela perceba na outra pessoa, qualquer mínima resposta, qualquer olhar, qualquer frase, de uma maneira super negativa, como uma rejeição a ela, como uma rejeição às ideias dela.

E o que acontece? Dizem que essa pessoa tem que trabalhar na sua forma de entender os outros, para entender que não é bem assim, que ela tem que deixar de ser dramática. Mas a questão não é essa. A questão é que as pessoas desenvolvem isso com uma resposta traumática. Nós temos que pensar que autistas, em sua expressiva maioria, sofreram muitas violências no decorrer da sua vida. E que tipo de violência? São violências bastante específicas e por isso especialmente traumáticas. Porque ocorreram ao longo de toda a vida, de pessoas que deveriam proteger, acolher e mostrar segurança. Sejam pais, familiares, na escola, com professores, com colegas, com amigos, nas relações.

Todas essas relações são fontes de violências contra a pessoa autista, de inúmeras formas. Além disso, essas violências vêm de forma inesperada, abrupta, sem que a pessoa autista consiga sequer entender o que motivou aquela violência. Então, quando você tem a sensação de que está permanentemente, constantemente inseguro nas relações e sempre na iminência de sofrer uma violência, o que acontece? Você se torna uma pessoa reativa, você resolve construir uma defesa em que você ataca, em que você fecha as suas proteções antes que a outra pessoa tenha a chance de te machucar.

Se você tem a sensação que essas violências ocorrem de forma inesperada, você vai ter essas reações com qualquer relação, mesmo com coisas que seriam consideradas banais por outras pessoas.

E, na verdade, muitas dessas coisas que depois vão dizer para a pessoa autista, "ah, isso é coisa da sua cabeça, ele nem ficou bravo", depois a pessoa autista vai descobrir que sim, que tinha fundamento a intuição dela. Por isso a gente também tem que aprender a confiar na nossa intuição, se tem alguma coisa te dizendo que não é seguro estar com aquela pessoa, você pode estar sentindo alguma coisa que indique que realmente aquela pessoa está pronta para te atacar a qualquer momento.

Muitas vezes queremos ser compreensivos com as pessoas porque nunca foram compreeensivos conosco e sabemos como é doloroso quando as pessoas não entendem, não querem entender os nossos motivos e nos julgam precipitadamente. O problema é que, às vezes, é bom ficar com o pé atrás e entender que se tem alguma coisa te dizendo para tomar cuidado com aquela pessoa, isso pode ter um motivo, mesmo que você não consiga defini-lo em palavras naquele momento.

Para superar essa extrema sensibilidade a rejeição, precisam ser construídas relações em que essa pessoa encontre o que ela muitas vezes não encontrou a vida inteira; relações seguras em que ela não precise ficar se defendendo a todo momento. E isso vai ser muito difícil, porque as relações hoje em dia estão muito complicadas, estão muito superficiais, estão muito... As pessoas, de uma forma geral, estão bastante reativas e sempre prontas a atacar, a se defender. E a pessoa muito traumatizada é muito reativa e vai ser ainda mais difícil para ela construir uma relação, porque as pessoas não vão ter essa paciência com ela, de entender por que ela está, de repente, tendo essas respostas grosseiras, rudes.

E por isso que você tem que encontrar relações, espaços onde você possa estar sem sofrer violência, e isso vai demorar, porque se você passou 10, 20, 30, 40 anos sofrendo essas violências, não vão ser seis meses num lugar acolhedor que vão dar conta desses traumas. Você vai continuar tendo essas reações, vai estar nesses lugares seguros e você vai ter uma reação exagerada com quem realmente não tinha a menor intenção de te prejudicar. Por quê? Porque você tem a tua vida inteira ali, te mostrando que as relações, que a vida, que a sociedade não é segura. Uma coisa que eu acredito muito profundamente, que eu digo muitas vezes em palestrasÇ se você acha difícil o processo de desfralde, de qualquer desses marcos da infäncia, eu digo que tudo isso é fácil perto de conseguir desconstruir um trauma, certo? Porque com o trauma não tem caminho certo, não tem caminho fácil, e a pessoa traumatizada é a mais
difícil de ajudar, infelizmente, justamente porque ela vai ser muito reativa, ela vai ser muito defensiva, porque ela precisou se tornar assim por conta desses traumas.

A coisa mais importante que nós devemos fazer em relação às pessoas autistas, sejam elas crianças, adolescentes, adultos, idosos, é focar em construir experiências menos traumáticas, mais acolhedoras, para que elas possam se sentir seguras, para que não se constituam traumas e reações traumáticas. E, no caso de terem se constituído essas reações traumáticas, criar espaços para construir novas significações. Isso não é um processo de cura, não se volta a um estado anterior, mas pode-se construir novos caminhos.