Fiz um vídeo falando sobre como os traumas sofridos por pessoas autistas ao longo de toda a sua vida e as formas que essas pessoas encontraram para se proteger dessas violências influenciam a forma como elas irão compreender o autismo e criar seus filhos. Disponibilizo o vídeo aqui e, abaixo, uma transcrição adaptada.
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Uma coisa que eu tenho pensado é que, como muitos pais de autistas são também autistas - muitas vezes sem saber - há uma série de questões muito pessoais e muito relacionadas ao autismo que esses pais estão enfrentando e tem que enfrentar para se tornarem pais de crianças autistas.
Um ponto básico aqui é que muitos pais autistas que precisariam de mais suporte do que estão recebendo, tem que de repente dar suporte para outra pessoa sem ter as próprias condições disso. Isso ocasiona um esgotamento, uma exaustão, um burnout violento e de que quase não se fala. Muitas vezes esses pais e mães não dão conta de proporcionar os cuidados dos filhos que eles considerariam necessários, o que por sua vez os deixa numa situação ainda pior, porque eles então se culpam por não atenderem suas próprias expectativas.
E outra questão bem complicada é que muitos autistas adultos, como cresceram em uma sociedade capacitista, foram ensinados de uma forma profundamente violenta a ter que se adequar a uma sociedade que não é autista; a ter que se reprimir, a ter que esconder seus interesses, suas formas de agir, seus comportamentos, seus movimentos. Quando eles enxergam esses mesmos comportamentos nos filhos, é possível que eles reprimam com a mesma violência esses comportamentos "desviantes". Isso não ocorre apenas porque foi assim que lhes foi ensinado, mas também porque não fazer isso gera uma dissonância dentro deles, dentro do seu conceito de identidade, de personalidade.
É uma questão que se coloca dentro deles, ainda que eles não verbalizem, não racionalizem dessa forma: quando uma criança - ou um adulto - sofre uma violência, ela tenta racionalizar isso. Por isso que muitas vezes as pessoas vão repetir quando adultas, "ah, eu apanhei quando era criança e tá tudo bem comigo e eu me tornei uma pessoa melhor por causa disso". Por quê? Porque é a forma que elas encontram de racionalizar uma violência que elas não entenderam, que era arbitrária, que era uma coisa desnecessária, enfim, uma violência arbitrária profunda de pessoas que elas entendiam que deveriam as proteger.
E como elas não conseguem separar, entre essa pessoa que me protege, que me ama, que eu amo, e essa coisa violenta que me machucou profundamente, elas vão conciliar isso dessa forma, "ela fez isso porque era necessário para eu me adequar à sociedade", "ela fez isso porque era necessário". Então, isso se torna uma questão muito essencial dentro da pessoa. E aí, quando adultas elas vão rejeitar violentamente toda forma de discurso que diga que não, não precisa bater em criança, não precisa reprimir comportamentos, tudo bem ela falar durante três horas sobre dinossauros, tudo bem ela precisar se balançar, tudo bem ela se incomodar com barulho, ela pode receber um abafador de ruído, ela não tem que se acostumar com isso. Porque dentro dela ela sente um ataque a essa estratégia de proteção que ela criou há muito, muito tempo para poder lidar com essa violência passada.
Porque, veja bem, se não precisa dessas coisas com o filho dela, então não precisava com ela própria. Então, ela não precisava ter sofrido aquela violência absurda. Isso vai atacar uma coisa muito profunda dentro dela. E aí é muito difícil que ela consiga romper com isso, com esse ciclos de violência que é familiar, que é geracional. Porque ela cria dentro dela essa barreira que diz, "tem que existir essa violência". E se tu começa a atacar isso e dizer que não, não é necessário, que você pode adequar, que você pode dar suporte, que você precisa acolher, que você pode resolver as coisas de forma amorosa, você começa a atacar essa barreira.
Às vezes ela vai precisar de um suporte, de um discurso, de um apoio ao redor dela para entender que isso aconteceu, que é por isso que está tão difícil para ela mudar. E ela vai ter que ter um suporte para encontrar formas de ressignificar isso, ressignificar essa história, reescrever isso. Eu não precisava ter sofrido aquela violência, mas é o que os meus pais, os meus familiares deram conta, eles fizeram o que eles deram conta, enquanto pessoas, enquanto pessoas com seus próprios traumas, com suas próprias questões. Não é uma questão de perdoar essas violências, mas é uma questão de compreensão.
Você pode dizer não e cortar relações com esses familiares, porque há coisas, há violências, que você não deve simplesmente suportar só porque você tem relações familiares com quem te traumatizou. Cada um vai ter o seu limite de dizer, "não, eu vou virar a página, por mim, eu vou cortar relações". Então, ressignificar não é uma questão de perdoar, de dizer, "ah, tadinhos, eles não sabiam", enfim, não é por eles, é por você. Você significa aquilo que você passou, que sofreu uma violência que não era necessária. Essa violência te magoou, ela te trouxe traumas, ela impactou a sua vida durante a vida inteira e não precisava ter acontecido.
Mas a partir daí, o que você escolhe fazer? Isso pode ser muito, muito, muito, muito difícil, certo? Então, por isso que a gente talvez, enquanto grupo, enquanto comunidade, enquanto sociedade, a gente tem que começar a encarar formas de dar apoio para as pessoas, para elas poderem lidar com isso. Têm tantas comunidades, grupos de pais, de pessoas autistas, que podem começar a ser um espaço de diálogo. Um ponto importante para começar a ter essa abertura é um pai ou mãe poder ouvir outro pai ou mãe falando que passou por isso, porque a partir do momento que ela encontra um par que passou por essa situação, ela consegue começar a encarar isso sem se sentir julgada.
Ela precisa encontrar um par que passou por isso, que possa ouvi-la, para que ela possa ouvir uma história diferente, porque a gente começa a ressignificar quando ouve, quando tem acesso a essas histórias diferentes. Então, enquanto pais, enquanto grupos, enquanto sociedade, enquanto terapeuta, temos que começar a refletir sobre esses traumas profundos que esses pais, essas mães, carregam, e entender que eles não vão mudar apenas porque alguém você disse, "olha, hoje a gente faz diferente", porque existe toda uma questão de personalidade, psicológica, muito grande, uma barreira que foi colocada ali por um motivo, como uma forma de proteção. É preciso que esses pais se responsabilizem, reconheçam isso, e possam, a partir disso, construir uma nova história, para eles mesmos, e para os filhos.